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segunda-feira, maio 31, 2010

Iara Lee, antes de embarcar: Por que vou a Gaza

Por Iara Lee, a brasileira na embarcação humanitária turca atacada pelo exército israelense.

reproduzido no Opera Mundi

Em alguns dias eu serei a única brasileira a embarcar num navio que integra a GAZA FREEDOM FLOTILLA. A recente decisão do governo israelense de impedir a entrada do acadêmico internacionalmente reconhecido Noam Chomsky nos Territórios Ocupados da Palestina sugere que também seremos barrados. Não obstante, partiremos com a intenção de entregar comida, água, suprimentos médicos e materiais de construção às comunidades de Gaza.

Normalmente eu consideraria uma missão de boa vontade como esta completamente inócua. Mas agora estamos diante de uma crise que afeta os cidadãos palestinos criada pela política internacional. É resultado da atitude de Israel de cercar Gaza em pleno desafio à lei internacional. Embora o presidente Lula tenha tomado algumas medidas para promover a paz no Oriente Médio, mais ação civil é necessária para sensibilizar as pessoas sobre o grave abuso de direitos humanos em Gaza.

O cerco à Faixa de Gaza pelo governo israelense tem origem em 2005, e vem sendo rigorosamente mantido desde a ofensiva militar israelense de 2008-09, que deixou mais de 1.400 mortos e 14.000 lares destruídos. Israel argumenta que suas ações militares intensificadas ocorreram em resposta ao disparo de foguetes ordenado pelo governo Hamas, cuja legitimidade não reconhece. Porém, segundo organizações internacionais de direitos humanos como Human Rights Watch, a reação militar israelense tem sido extremamente desproporcional.

O cerco não visa militantes palestinos, mas infringe as normas internacionais ao condenar todos pelas ações de alguns. Uma reportagem publicada por Amnesty International, Oxfam, Save the Children, e CARE relatou, “A crise humanitária [em Gaza] é resultado direto da contínua punição de homens, mulheres e crianças inocentes e é ilegal sob a lei internacional.”

Como resultado do cerco, civis em Gaza, inclusive crianças e outros inocentes que se encontram no meio do conflito, não têm água limpa para beber, já que as autoridades não podem consertar usinas de tratamento destruídas pelos israelenses. Ataques aéreos que danaram infraestruturas civis básicas, junto com a redução da importação, deixaram a população em Gaza sem comida e remédio que precisam para uma sobrevivência saudável.

Nós que enfrentamos esta viagem estamos, é claro, preocupados com nossa segurança também. Anteriormente, alguns barcos que tentaram levar abastecimentos a Gaza foram violentamente assediados pelas forças israelenses. Dia 30 de dezembro de 2008 o navio ‘Dignity’ carregava cirurgiões voluntários e três toneladas de suprimentos médicos quando foi atacado sem aviso prévio por um navio israelense que o atacou três vezes a aproximadamente 90 milhas da costa de Gaza. Passageiros e tripulantes ficaram aterrorizados, enquanto seu navio enchia fazia água e tropas israelenses ameaçavam com novos disparos.

Todavia eu me envolvo porque creio que ações resolutamente não violentas, que chamam atenção ao bloqueio, são indispensáveis esclarecer o público sobre o que está de fato ocorrendo. Simplesmente não há justificativa para impedir que cargas de ajuda humanitária alcancem um povo em crise.

Com a partida dos nossos navios, o senador Eduardo Matarazzo Suplicy mandou uma carta de apoio aos palestinos para o governo de Israel. “Eu me considero um amigo de Israel e simpatizante do povo judeu” escreveu, acrescentando: “mas por este meio, e também no Senado, expresso minha simpatia a este movimento completamente pacífico…Os oito navios do Free Gaza Movement (Movimento Gaza Livre) levarão comida, roupas, materiais de construção e a solidariedade de povos de várias nações, para que os palestinos possam reconstruir suas casas e criar um futuro novo, justo e unido.”

Seguindo este exemplo, funcionários públicos e outros civis devem exigir que sejam abertos canais humanitários a Gaza, que as pessoas recebam comida e suprimentos médicos, e que Israel faça um maior esforço para proteger inocentes. Enquanto eu esteja motivada a ponto de me integrar à viagem humanitária, reconheço que muitos não têm condições de fazer o mesmo. Felizmente, é possível colaborar sem ter que embarcar em um navio. Nós todos simplesmente temos que aumentar nossas vozes em protesto contra esta vergonhosa violação dos direitos humanos.




9 Comentários:

Anonymous David disse...

Olha, essa coisa de dizer que foram apenas entregar comida, água, suprimentos médicos e materiais de construção é falso. Se fosse apenas isso, eles podiam ter feito como se faz com as outras 15 mil toneladas de ajuda humanitária que chegam através dos portos israelenses, como Ashdod. Inclusive há videos no youtube que comprovam que a marinha israelense mandou diversos avisos pedindo que mudassem sua rota para poder fazer a entrega. O objetivo foi claramente furar o bloqueio militar de Israel.

E a atitude de Israel de cercar Gaza não é um simples "desafio à lei internacional", como diz o texto. É, sim, um ato de guerra contra o governo do Hamas. Se você pesquisar um pouquinho sobre o Hamas, pode ver na sua carta de fundação os objetivos do movimento (pode ser baixado em pdf, só procurar no google). O principal objetivo é destruir o estado de Israel e criar um estado islâmico palestino em toda a área. Isso inclusive já implicou no fuzilamento de um monte de palestinos cristãos, ligados ou não ao Fatah.

Veja se esse tipo de coisa acontece no governo do Abbas e do Fayad? Não acontece, porque o governo da Cisjordânia tem discurso de paz. Inclusive, o Fayad é um político palestino muito inteligente que tem tudo para fazer mais pelo povo palestino do que fez seus antecessores. Pergunta pra ele o que ele acha do Hamas. (Não precisa perguntar, é só ler suas entrevistas). Quando o Lula foi visitar a Palestina e disse que dialogaria com o Hamas, conseguiu emputecer tanto israelenses quanto palestinos. Você sabia que Israel fornece armas para a polícia palestina e repassa impostos à AP? Por que será que em paralelo faz um cerco à Gaza do Hamas? Será que são simplesmente maus, comedores de criancinhas?

Quanto a morte de civis não há desculpas e é óbvio que eu, como qualquer pessoa com um mínimo de soliedariedade humana, sofre pelos palestinos. Mas dizer que o cerco não visa militantes palestinos é ridículo. Você viu o navio que foi interceptado no ano passado, com uma quantidade absurda de armamento passando por essa rota? De novo, se fosse o caso de querer impedir que os mantimentos chegassem, não haveria a rota por terra, que passa por inspeções e chega semanalmente a Gaza.

Não há justificativa para impedir que cargas de ajuda humanitária alcancem um povo em crise? Realmente não há, e por isso elas chegam. Você percebe que o real objetivo é dar um golpe de propaganda anti-israelense?

É uma pena ver quanta gente de bem se envolve nesse tipo de iniciativa com as melhores das intenções. Mas comparar o bloqueio a Gaza com a causa ambiental, como você fez, é comparar algo que divide opiniões com algo que é indiscutivelmente para o bem da humanidade. Não faz sentido.

Também acho o Nethanyau um idiota belicista. Mas as circunstâncias e as escolhas do povo palestino (como eleger o Hamas) levou os israelenses a votarem nele. O Rabin, o Perez e os políticos israelenses que querem a paz foram eleitos em momentos que os políticos palestinos falavam de paz e se tinha esperança de negociações. Mas com o Hamas não existe negociação.

Desculpa, mas nesse tema é impossível separar preto do branco assim como estão pintando esse quadro.

9:52 AM  
Blogger Joana disse...

Muito bom hein!
Estamos com saudades de vocês!
Beijo carinhosos,
Jojo, Gui e Manu

1:00 PM  
Blogger Daniel Xavier disse...

A periculosidade do Hamas é inquestionável mas insisto que até esta aberração tem que ser encarada num contexto histórico. É a mesma explicação que você usou para a eleicão do Nethanyahu: a subida do Hamas ao poder em Gaza é uma consequência da dura política externa americana-israelense sobre a região naquele momento (e na história recente), já que se deu através de eleições (me corrija aqui) com a presença de observadores da ONU. A população oprimida elegeu em desespero quem pensou que podia "defendê-la". Isso quer dizer alguma coisa, e não é que a maioria da população de Gaza é terrorista (e qualquer discussão sobre "terrorismo" tem sempre que ser antecedida de uma discussao muito objetiva sobre a definição da palavra). Eu, como qualquer ser humano bípede, abomino qualquer declaração anti-semita do presidente do Irã. Torci pela oposição na eleição iraniana. Tenho profundo respeito ao povo israelense e ao Judaísmo. Mas também respeito o povo do Irã, outra civilização fantástica, que não pode ser generalizado como réplica em escala de seu ditador/presidente. Assim como o povo israelense também não pode ser julgado como réplica de extremistas de direita. Havia judeus ortodoxos hoje protestando contra o ataque em frente à Casa Branca. Quando postei estes textos, o fiz não querendo pesar para um lado ou para o outro do conflito. Quero pesar para os dois, e a única saída boa para os dois é dar um passo atrás na violência, não à frente. Conversar, muito, muita diplomacia. Por isso que eu acho que o Lula não é "ingênuo", como disse a Hillary. Hoje estão na moda os "ataques preventivos", olha a isso. Estamos perdendo os limites, inclusive politico-geográficos, e isto não é bom. Extremismo ideológico é nocivo seja de que lado da mesa ele estiver, e isso eu já vi que a gente concorda.


Abs!
:D

8:10 PM  
Anonymous David disse...

Concordo que a eleicão do Hamas tem que ser encarada num contexto histórico, mas o contexto que você falou é uma informação falsa: a subida do Hamas ao poder em Gaza é uma consequência da insatisfação com a corrupção dentro do Fatah e não tem ligação direta com a política externa americana-israelense. Segundo muitos palestinos, foi um "protesto" contra o Fatah. Mas o tal protesto saiu pela culatra. E a desocupação de Gaza por Israel foi seguida da ocupacão pelo Hamas, seguida ainda do cerco a Gaza por israel. Cerco esse que já apreendeu literalmente toneladas de armas contrabandeadas, inclusive por essa mesma rota que os "pacifistas" tentaram usar ontem.

Concordo que a maioria da população de Gaza não é terrorista. Também admiro a cultura persa.

Voltando ao assunto, quando você posta esse texto, parece que está dando respaldo a ele. E se essa brasileira acredita no que escreveu, foi usada. Já foi provada a ligação do líder da ação dos barcos ao Hamas. As fotos tão correndo a internet.

Concordo que a única saída boa é dar um passo atrás na violência e conversar. Mas o Hamas discorda da gente. E quem quer tentar furar um bloqueio militar na marra também discorda da gente.

Já disse que eu acho que o Lula não é ingênuo. Apenas disse que ele aparece como um ingênuo aos olhos do mundo. As intenções do Brasil são péssimas e nada ingênuas.

Se você ainda acha que eram pacifistas dentro do barco, vja esses videos:
http://alturl.com/24b3

http://alturl.com/5f66

8:34 PM  
Blogger Daniel Xavier disse...

Eu lembro de ter visto os críticos do Bush aqui dizendo que o Hamas se elegeu por incompetência e descuido do governo americano. O assunto é farto e eu vou tentar trazer mais artigos sobre ele. Mas vai ser difícil tirar da minha cabeça um único ponto de que os dois lados juntos são responsáveis por esta escalada na tensão internacional.

Sobre a foto, você vai me xingar mas pra mim é a mesma coisa que o Lula posar ao lado do Fidel ou do Ahmadinedjad, que são chamados de sanguinários pelos adversários. "Provada a ligação do líder da ação dos barcos ao Hamas" é precipitado.

Sobre furar o bloqueio militar, nem questionei o bloqueio em si, mas sim um outro problema anterior muito grave: a operação foi feita em águas internacionais. Tecnicamente, nem um navio iraniano passando por ali poderia ser atacado.

Sobre as péssimas intenções do Brasil que você disse, nem preciso dizer que fico curioso. Seria construir a bomba atômica? Li algumas opiniões até favoráveis que viam, sim, uma estratégia nisso.

Sobre os vídeos, concordo que os invasores não foram recebidos com festa. Mas daí pra dizer que os israelenses levaram desvantagem no confronto está bem longe, não?

abs!
:D

10:31 PM  
Anonymous David disse...

Daniel, não faz sentido esse argumento dos "críticos do Bush" porque o Hamas não é só mais belicoso que o Fatah. o Fatah também já explodiu muita criancinha em ônibus. Mas o Hamas é fundamentalista islâmico, coisa que o Fatah não é. Os palestinos não vão ficar religiosos de repente por causa do Bush. Vai por mim que o motivo foi um racha interno. Tanto que os governos de Gaza e da Cisjorânia se separaram.

Sobre a foto, não vou te xingar. Mas vou dizer que há outras coisas, como documentos (não lembro agora onde baixei o pdf) e também parece que teve articulação de gente ligada ao governo turco.

Esse lance de serem águas internacionais você pode estar certo. Talvez a marinha deveria esperar eles chegarem mais perto para poder entrar no navio. Mas já li que como eles declararam que iam furar o bloqueio, a marinha poderia sim entrar. É melhor esperar alguém especialista no assunto se pronunciar.

Bem, as intenções são essas sim. Não há consenso pelo que eu sei, nem é algo falado abertamente. Mas tbm não sou tão bem informado assim :)

"Não foram recebidos com festa" é mais que um eufemismo, cara. É sacanagem. Um jogado de uma altura de 10 metros, outros dois com ferimentos a bala e um espancamento generalizado. E não disse que os militares israelenses levaram desvantagem em nenhum momento. Mas você já assumiu algo importante: houve confronto. Não foi um simples ataque como estão pintando. Prova disso é que os outros 5 barcos foram levados ilesos até a costa e seus mantimentos levados a Gaza sem problema algum.

1:19 AM  
Blogger Daniel Xavier disse...

Sim, claro que houve confronto, como não? Só que eu acho que isso não vai contra os argumentos dos barcos turcos, diante de algumas circunstâncias como o fato de serem águas internacionais, por exemplo. Isso é básico em direito internacional. Mas, sigamos. Vou postar coisa nova logo mais pra gente continuar essa conversa. Já passei, e muito, dos meus 15 minutos de domínio sobre qualquer tema na face da terra por hora ;)

(Depois quero voltar também nesse lance do Brasil e a bomba atômica. Dois blogueiros de extremos totalmente opostos, o Paulo Henrique Amorim e o Reinaldo Azevedo, acham que o Brasil deveriam ter a bomba)

Abs!
:D

2:32 AM  
Anonymous David disse...

Daniel, só um último comentário sobre o que você falou agora. Descobri que o fato de serem águas internacionais deixa de ser um problema quando há suspeita de que o barco queira furar o bloqueio. Ou seja, esse negócio de que é básico em direito internacional caiu.

Ontem vi a matéria da Globo News sobre o assunto e fiquei puto. Só falam que Israel massacrou os humanitários e pronto. Tratam o resto como argumentos furados de uma Israel desesperada para cobrir suas maldades.

abs

3:12 PM  
Blogger Daniel Xavier disse...

Beleza, o assunto está se desenrolando agora, tem muita coisa por trás disso e mais um monte de outras coisas por trás disso que a gente nunca vai saber. Vamos seguir o noticiario, torcer para que ele seja o mais equilibrado possível e continuar esse papo em outro post.

Abs!
:D

8:46 PM  

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