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quinta-feira, setembro 30, 2010

Email aos brasileiros

Numa troca de emails com um grande amigo sobre o recente editorial do Estadão, coisa grande, que assumiu seu apoio ao candidato Serra, eu acabei fazendo – como os teimosos que ainda freqüentam o Midionauta podem atestar –, o que não faço há meses: escrevi. E, aproveitando a “onda verde”, que no fim vai desembocar é no Rio Tietê, resolvi reciclar tudo que disse em forma de post (antes de imprimir, pense no meio ambiente).

O editorial em questão traz acusações seríssimas. Segundo o jornal, a liberdade de imprensa está sob ataque. Dilma é um “mal a evitar”. Serra é a única salvação. Escondam as criancinhas mais suculentas! Antes de tudo, muita calma nessa hora. Como podem comprovar as recentes experiências norte-americanas, são dos momentos de pânico que se aproveitam as segundas intenções. Além disso, nós já vimos este filme, digo, novela, antes. Portanto, tome água com açúcar e leia com atenção: nosso atual governo não pratica censura. Para começar, sugerir o contrário é falta de respeito com os que sofreram na pele a falta de liberdade de expressão – entre eles, os próprios Lula e Dilma. Mas, antes de prosseguir, quero fazer um esclarecimento.

Uma preocupação recorrente de queridos leitores para com o midionauta que vos fala é que, de longe, eu talvez não receba as notícias que vêm do Brasil e, só por isso, não estou preocupado com a “falta de limites” do atual governo. Engano inocente. Eu acompanho, sim, de maneira às vezes doentia até, a mídia brasileira. Canais de TV ao vivo, abertos e a cabo, assisto dando dois cliques no Google. O JN eu vejo religiosamente todo dia. Um outro site me mostra, em letra grande, as capas diárias dos principais jornais brasileiros. Muitos dos seus artigos estão disponíveis online. Visito compulsoriamente alguns portais e também blogs de jornalistas de esquerda e de direita. Horário político e debate eu vejo comendo pipoca – às vezes, literalmente. Vi todos os debates presidenciais até agora, incluindo alguns que só foram ao ar na internet. Além disso, ainda tem a imprensa daqui de fora, que eu também consumo na veia. Vocês devem lembrar da cobertura das eleições americanas pelo blog, quando eu fui terminar na posse do Obama em Washington. Por isso o passageiro Midionair pode voar tranqüilo. Eu vejo a situação muito bem aqui de fora. A preocupação, na verdade, é toda minha: será que vocês enxergam bem estando aí dentro?

O debate sobre a liberdade de imprensa promovido pela mídia corporativa brasileira hoje não informa. Ao invés, presta desserviço. Apenas para situar a discussão, vamos comparar a imprensa no Brasil e o caso norte-americano. Os EUA possuem 4 grandes redes de TV aberta, com poder praticamente equivalente. Cada um desses canais tem uma equipe de jornalismo forte e influente. Existem ainda os vários canais de notícias 24 horas na TV a cabo, além do canal público – que é fenomenal. Ou seja, você tem uma pluralidade muito maior de opiniões. Você tem canais de TV assumidamente de direita, de esquerda, de centro, para todos os públicos. É o mesmo com rádios, revistas e jornais. Agora vamos ao Brasil. O que temos aí é uma voz uníssona e desproporcional, declaradamente ou não de oposição, que nasce na capa da Veja, é anabolizada nos editoriais de O Globo, Estadão e Folha, eclode no JN e vai parar no horário eleitoral do Serra. A verdadeira censura no Brasil é esta, aplicada pela unilateralidade da nossa imprensa e seu negócio. Daqui há 4 anos, se Dilma ganhar, estarei aqui neste blog pra concluirmos se foi instalado algum ato de censura no Brasil. Se eu não estiver, aí é porque ferrou mesmo e censuraram tudo, até a internet. Mas não me parece que é este o plano em andamento. O governo federal, por exemplo, ressuscitou recentemente uma estatal que possuía uma rede de fibra ótica já instalada pelo país, e vai levar internet banda larga a regiões não atendidas pela iniciativa privada. Que governo censor é esse que leva internet rápida à população? Fica ainda mais irônico quando notamos que, só quem sai perdendo com uma verdadeira democratização da informação no Brasil são, justamente, os mesmos responsáveis por formar a nossa opinião: os barões da mídia. Não é a liberdade de imprensa que está em risco e, sim, seu monopólio. Os gritos desta indústria não são de patriotismo mas de sobrevivência empresarial. Uma reforma verdadeiramente democrática quebrará o modelo de negócios da lojinha. Por isso tanta desinformação na praça. Analisemos os sinais do apocalipse que pautam esta discussão em seus veículos e a verdade sobre cada um:

- A “censura aos humoristas”: lei que vem até antes do FHC. Nada a ver com o governo.

- Políticos e tribunais corruptos censurando jornais: acontecem mas não se mantém num tribunal superior. O JN mesmo mostrou um caso deste na segunda-feira: um tribunal censurou, o outro derrubou. Esta é a democracia funcionando. Mesmo assim, não é culpa do Executivo.

- Os conselhos e fóruns de comunicação: como podemos chamar de “ameaça à democracia” discussões, discussões!, entre sociedade civil, governo e entidades do meio (os grandes veículos boicotaram o debate)? Tudo que sai de lá, por mais genial ou idiota, terá que passar pelo congresso, eleito pelo povo. Isso se chama democracia. E, sinceramente, eu li trechos de alguns documentos finais e tem várias propostas interessantes, a favor justamente da liberdade de imprensa e da real democratização da informação (nosso código de comunicação é do tempo da ditadura!).

- As recentes declarações do Lula: a imprensa pode criticar o presidente mas o presidente não pode criticar a imprensa? Quando opina sobre a imprensa, o presidente está exercendo sua liberdade de expressão como cidadão brasileiro, como o faço eu aqui. Quando ele assinar alguma coisa, aí sim você me acorda.

- A relação do governo com Venezuela, Irã e Cuba: se devemos cortar relações com estes países pela sua falta de liberdade de imprensa, seria coerente cobrar também que os EUA, país supostamente com a imprensa mais livre do mundo, cortem relações com a China, país que censura o Google. A China é hoje o maior credor dos EUA no mundo.

O argumento do voto para combater a censura não se sustenta nesta eleição presidencial. O verdadeiro debate, o que está realmente em jogo, diluído na cortina de fumaça, é a escolha entre dois modelos de gestão pública distintamente claros. Um é inspirado no que levou o capitalismo a conhecer seu teto na recente crise mundial. É a filosofia privatizadora, neoliberal, a crença do mercado desenfreado para sanar os problemas sociais, gradualmente, mesmo que alguns estejam morrendo de fome agora. O outro modelo é aquele admirado no mundo atualmente. É o que aumenta investimentos durante as dificuldades, e por isso sai delas antes. Que coloca o capitalismo selvagem sob as rédeas do estado forte, gerente de empresas públicas rentáveis. Que usa o bem estar social como política econômica. O modelo que é exemplo internacional de combate à miséria e o desmatamento. Que rejeitou o “Yes, sir” como política externa. É esta a decisão que o povo brasileiro vai fazer no domingo, não outra.




8 Comentários:

Blogger Marton Santos disse...

Daniel, acompanho teu blog já há algum tempo e não sei se na época o mesmo estava "perdido" e agora voltou a tratar de seu assunto principal, o fato é que antes eu gostava...agora não sei.
Me interessou acompanhar a vida de um brasileiro trabalhando no exterior e uma visão um pouco diferente sobre a mídia. O que é pena, me parece, é ter se tornado um tanto quanto panfletário nos últimos tempos.
Como formador de opnião tens todo o direito de abrir tuas preferências e "divagar"(como o próprio blog fala no header) sobre tua visão política. Talvez muita gente goste, espero que sim...mas para quem, como eu, busca apenas uma visão diferente de como a mídia trabalha, acompanhar uma defesa política, seja de candidato, partido ou ideologia, para mim é bastante frustrante.
Fujo de blogs e twitters oficiais de candidatos e até de jornalistas tendenciosos. Fujo até dos blogs e twitters do meu time de futebol, veja só. Acompanhar quem emite apenas uma opnião me faz sentir tal mal quanto se fosse assinante da Veja.
Acho louvável falar sobre esse editorial, pena que seja unilateral. Seria muito interessante ver teu ponto de vista midiático-desconstrutivista atuando nos dois (ou mais) lados da política.

9:44 AM  
Blogger Daniel Xavier disse...

Marton, o assunto principal do blog não é política e sim, mídia. O tema que de discorri, liberdade de imprensa, é um dos mais importantes, na minha opinião, atualmente. Mais do que defender um candidato, muito mais até, este artigo visava justamente fazer o que você diz que gostaria de encontrar aqui: uma visão diferente sobre como a mídia trabalha. Infelizmente, o assunto é chato para alguns, política, mas é isto que esta acontecendo de mais importante esta semana - e nas últimas. O problema não é acompanhar quem emite uma opinião só. A meu ver, isso é até sinal de coerência. O problema verdadeiro é quando todos que a gente acompanha emitem sempre a mesma opinião padronizada. E é essa alternativa que eu tento trazer aqui.

Abs!
:D

11:10 AM  
Blogger Bruno Almeida disse...

Muito bem, Daniel. Eu mesmo tenho fugido de embates políticos por aqui. Você acaba ouvindo as mesmas bobagens o tempo todo, uma repetição eterna. Quanto a questão da liberdade de imprensa no país eu concordo em parte. Acho até que você foi um pouco longe demais no encerramento do texto.Dilma vencerá as eleições por aqui salvo algum acontecimento ainda mais caloroso na reta final. Toda a campanha predatório pré votação do PSDB obviamente está minando a candidata do PT. Por outro lado o PT tem sim um mão pesada no trato da cultura do país. A truculência política nunca foi exclusividade de nenhuma lado, mas a cultura no Brasil acabou em um melaço de corrupção e controle estatal que nos estagnou bastante. Não votarei na candidata do PT. Acredito porém que o modelo que você defende como o vilão da economia americana não está nada distante do proposto pelo PT. Acabar com a miséria no país eu não tenho dúvida que é primordial, mas impulsionar as classes mais baixas através da simples transferência de renda e, o mais perigoso, crédito, não chega a ser menos capitalista. O Brasil carece mesmo é de uma revisão política e administrativa profunda. As instituições estão sem rumo e esvaziadas e isso sim deveveria ser discutido.

Abralho,

11:39 AM  
Blogger Marton Santos disse...

Concordo com o que tu diz sobre liberdade de expressão Daniel e de maneira nenhuma considero o assunto "chato". Como tentei dizer antes, só fujo da panfletagem, pois não acho válido. Considero uma conversa política com alguém extremamente partidário o mesmo que discutir religião com um Testemunha de Jeová. Ou tentar convencer um gremista que o internacional é mais time...é uma discussão que foge da racionalidade...infelizmente, pois deveria ser a decisão mais racional possível.

Trazer a tona determinados assuntos é obrigação da imprensa e seria ingênuo acreditar que estes também não tem a ganhar com a eleição de A ou B. Tirando os tendenciosos e os apaixonados sobram muito poucos a se dar ouvidos...

Fora isso, como disse o Bruno, não votarei em Dilma, muito menos em Serra. Acho lamentável tanto a tentativa de diabolização da Dilma, quanto a revogação da necessidade de título e documento com foto às vésperas da eleição. Ambos são estratégias eleitoreiras lamentáveis...

1:28 PM  
Blogger Daniel Xavier disse...

Neste texto, Almeidinha, eu quis me apegar mais na discussão sobre a liberdade de imprensa, que é apenas uma das questões no prato hoje. A grande maior parte do post é de exposição e esclarecimento de fatos sobre este assunto. Foi no parágrafo final, como você notou, que eu fui mais opinativo mesmo, como o Estadão, e joguei um farol alto em coisas que, você está certo de novo, merecem todo uma outra longa conversa - como modelos de gestão e a corrupcão. Tenho comigo que pensamos da mesma maneira e no fundo chegaríamos nas mesmas conclusões, o que só não fica mais fácil hoje por causa, justamente, desta água turva da imprensa brasileira. O que mais é este possível "acontecimento caloroso" que você menciona se não, justamente, uma artimanha do partidarismo da imprensa que eu escrevi?

abs!
:D

1:38 PM  
Anonymous Jojo Farias Carvalho disse...

Muito obrigada.
Sensacional.

3:57 PM  
Blogger O Nômade disse...

Independente da minha opinião política, fiquei feliz de ver você escrevendo de novo. Vê se mantém o ritmo.

Abração!

6:20 PM  
Anonymous David disse...

Daniel, quando o presidente de um país faz declarações PÚBLICAS criticando a imprensa, não é o cidadão que está falando. É a instituição presidente. E isso é sim preocupante. A galera que defende o PSDB as vezes força a barra na intensidade que a liberdade de imprensa é posta em perigo? Talvez. Mas pra mim o Lula tá testando seu poder quando fala isso. Se colar, não duvido nada. E os órgãos de imprensa tem mais é que espernear e mobilizar a sociedade contra esse tipo de declaração sim. Não tem que esperar assinar papel coisa nenhuma. QUando assinar papel já vai ser tarde demais.
Abraço

7:21 PM  

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