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segunda-feira, setembro 20, 2010

Fernando Campos: London Festivals in Las Vegas

Por Fernando Campos, jurado do London Festivals e sócio-diretor de criação da agência Santa Clara. Via CCSP.

A Laís me pediu pra escrever minhas impressões do júri do London Festivals, aqui de Las Vegas.

Por que o London Festivals é julgado em Las Vegas? Não me pergunte. Mas pra uma cidade que tem a Torre Eiffel, a Piazza de San Marco, o Chrisler Building e a Pirâmide de Gizé na mesma rua, nada de muito estranho em abrigar o London Festivals.

Aliás, capítulo à parte: Las Vegas é disparado a cidade mais bizarra que já conheci. Nem sei se tecnicamente isso pode ser chamado de “cidade”.

Na primeira noite andamos o Las Vegas Strip (a rua principal) inteiro, quase que completamente pelo subsolo, cruzando de hotel para hotel por galerias, cassinos e megashoppings subterrâneos.

Freak no úrtimo. Olhando a cidade de cima, de um bar panorâmico onde o júri se reuniu para um welcome drink, tive a certeza de que um dia arqueólogos de uma civilização mais avançada vão escavar aqui e ao analisar as ruínas dirão: “Obviamente esses caras estavam perdidos, não é à toa que eles se destruíram”.

Eu esperava um exagero de breguice, mas nem nos meus devaneios mais loucos eu poderia imaginar este nível de breguice.
Ainda mais agora, num mundo discutindo seus excessos financeiros e de atitude, esta cidade parece mais descolada do que nunca da realidade. Tive a sensação de que nunca mais voltaria aqui. Acho que eu estava errado, mas vou deixar pra explicar isso no ultimo parágrafo.

Bom, mudando de pato pra ganso, ou de Vegas pra Londres: o festival. Nada de novo. Os mesmos cases. As mesmas peças ganharão prêmios (hoje, sexta-feira, 17, julgaremos as medalhas). Os mesmos anunciantes. O mesmo cansaço em olhar um long list de 2000 peças e apertar botõezinhos de sim ou não pra cada uma delas. As mesmas fórmulas. E, pelo amor de Deus, os mesmos roteiros dos malditos “cases” com seus clippings, seus problemas/soluções, as mesmas mentiras sobre o quanto uma camiseta promocional mudou a opinião pública de todo um país etc, etc.

O Miguel Benfica uma vez fez um video sacaneando isso (espie aqui).

Os cases parecem estar caminhando pro lugar errado. Em vez de focarem na tal da Big Idea, ficam dando milhares de voltas, listando premissas óbvias como se você fosse um idiota (nada poderia ser mais danoso pra uma peça do que chamar o jurado de burro). É fato que, na maioria das vezes, você acaba descobrindo que o case era prolixo (ou seria “pro lixo?”) e tortuoso justamente pra esconder uma ideia que simplesmente não existia. E era frustrante perceber que algumas boas ideias ficaram escondidas pelo case, atrás de argumentos e defesas calhordas como “isso nos deu muito trabalho, mais de 1000 horas de trabalho, mas no final valeu a pena”.

Porra, o cara quer que a gente dê um prêmio pra ele porque ele virou a noite trabalhando? Sugeri darmos um quadrinho de funcionário do mês pra ele. A ideia está em análise.

O case mais hilário ficou no outro júri, presidido pelo Marcello Serpa, o júri de Print e “Non-tradicional”: uma história que, segundo o Marcello, começava com “No Japão, os jovens estão consumindo menos álcool. E isso é um problema”. Depois dessa frase, ninguém consegue mais desgrudar o olho. Onde esse troço vai parar? Bem, onde você não imaginava. Pois a “solução” para o “problema” foi colocar réplicas em silicone da boca de celebridades nos gargalos das garrafas do produto, como se fossem bicos de chupeta. Para que? Para que os jovens tivessem, ao beber, a sensação de estarem beijando na boca sua celebridade favorita.

A primeira coisa que me veio na cabeça foi imaginar adolescentes dando entrada no pronto socorro com uma parte importante do corpo presa na boquinha da garrafa.

Mas o fato é que a peça mais criativa que vi, o Grand Prix supremo desta semana, não estava no long list, sequer estava na sala do júri. Ontem à noite fui ver “Love”, o espetáculo do Cirque du Soleil sobre a obra dos Beatles. É uma das coisas mais lindas que já vi na vida. Você tem a nítida impressão de que colocaram ácido na pipoca. A direção de arte magnífica e a qualidade criativa de tudo, roteiro, figurinos, iluminação, coreografias, aliadas à técnica impecável e a uma infraestrutura que deixa a Broadway no chinelo fazem jus à obra dos Beatles.

Mais que isso: eles conseguiram fazer a tal da Big Idea brilhar. E eu me refiro à Big Idea que estava na cabeça daqueles quatro caras geniais. A tecnologia e os efeitos visuais não escondem o brilho da música dos Beatles, pelo contrário: expõe a contemporaneidade eterna da obra dos caras. Absolutamente sensacional, emocionante, e transformador.

E no fim, quando você está sem ar, entra gigante nas paredes do teatro a frase: “And in the end, the love you take is equal to the love you make”.

Grand Prix pra eles.




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