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quinta-feira, dezembro 04, 2008

Quando eu crescer, quero escrever assim

Trouxe o 32° anuário do CCSP (capa ao lado) quando estive agora no Brasil. Como o novo está atrasado, este ainda é o último - que também saiu atrasado, não foi? Ainda estou vendo aos poucos e acabei de encontrar este anúncio de texto, que reproduzo abaixo, escrito pelo Cássio Zanata, diretor de criação da AlmapBBDO. É uma homenagem ao criativo Roberto Pereira, quando este entrou para o Hall da Fama do Clube de Criação de São Paulo. Estou pensando em tentar veterinária.


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"Então Nossa Senhora da Anunciação se encheu, fechou a Veja, desligou o Fantástico e transformou todos os homens de criação em Roberto Pereira.

PUF.

Imediatamente a estatura de todos os publicitários diminuiu.
Claro, “estatura” aqui no sentido da fita métrica.

Então o índice Ego Jones desabou a níveis toleráveis.
Na mesma impressionante proporção, cresceu o respeito à idéia por parte de clientes e homens de marketing.

Topetes corcovados baixaram consideravelmente – tanto que deram lugar a uma carequinha franciscana. Franciscana em termos, como diria a pomba que a usou como alvo e ouviu umas barbaridades.

E a verdade se alastrou como o recall de uma bela campanha.

O pronome “eu” foi cada vez menos usado nas reuniões, nos discursos, nas entrevistas.

Aliás, que entrevistas? De uma hora para outra deixou-se de dar entrevistas que tentavam conceder relevância ao que não tinha.

As grandes viradas criativas revelaram-se uma fraude.

Os calçados Vulcabrás e jeans Elle et Lui tornaram-se o must da nova moda.

Gírias que se julgavam extintas, como “é um barato” e “qual é o grilo” voltaram à boca do povo.

Uma estranha atitude se espalhou por festivais em todo o país: a de não comparecer a premiações.

O Colunistas acabou por falta de inscrições.

O Voto Popular acabou por falta de inscrições.

O Clube de Criação perdeu todos os seus sócios.

Os fabricantes de vinho branco, de torradinhas para canapés e assessorias de imprensa em geral ficaram inconsoláveis.

Nas academias de ginástica, o sumiços dos publicitários doeu mais que um pneu no espelho.

A cruzada contra o fumo esvaiu-se no ar.

Os publicitários não deixaram de ir ao Dom, ao Fasano e ao Antiquarius – apenas deixaram de ir ao Dom, ao Fasano e ao Antiquarius por outra razão que não fosse pela comida.

Todos mandaram as aulas de inglês às favas, que isso é coisa de colonizado.

As pesquisas que traziam uma luz ao briefing foram consagradas.
As que serviam como desculpa para engavetar boas idéias foram rasgadas e arderam por doze dias e doze noites.

Aliás, ficou estabelecido que esse seria o prazo mínimo para a criação trabalhar em paz.

E o milagre então se fez. As idéias brotavam aos montes, de todas as agências, como nos anos da graças de 70 e 80.

A ficha técnica voltou a ficar menos importante que a peça.

Uma língua de fogo abriu-se em meio a inversão térmica, e legiões de Silvios Limas baixaram nas novas gerações.

A publicidade voltou a ter valor. E não era “agregado”, que esse termo passou a ser motivo de grande irritação.

Valendo mais, a publicidade pagou mais.

E os criadores então tiraram seus fones do ouvido e voltaram a conversar entre si, dar risada e freqüentar almoços e happy-hours.

Então Nossa Senhora da Anunciação, aliviada, sorriu um sorriso divino e piscou para Roberto Pereira.

Que ficou todo vermelhinho."




4 Comentários:

Blogger Pedro disse...

A parte dos fones de ouvido então é fantástica.

Muito bom.

8:41 PM  
Blogger Bruno Almeida disse...

Bom,

torço por você.... Não só o texto é sensacional como a personagem em questão parece ser realmente du caralho. Claro que não dá pra esquecer que esses textos sempre enaltecem suas personagens, afinal é disso que se trata o Hall da Fama, mas realmente o cara parece ser incrível. Pra mim o figura sempre foi uma das peças mais curiosas do mercado paulista-brasileiro de propaganda. Fico feliz na retomada do curso de propaganda aqui desse espaço virtual. Menos discussões vazias sobre uma Saramago que realmente ninguém é especialista e mais propaganda.

Abraço,

Almeida

7:25 AM  
Blogger Daniel Xavier disse...

É, Almeidinha, o cara parece ser du caralho mesmo. Eu confesso minha ignorância, não conheço ele.

Quanto ao Saramago (e lá vamos nós de novo), acho que por mais extremas que algumas opiniões tenham sido, valeu a discussão. A galera comenta pouco aqui no blog, é bom dar essas movimentadas. O problema não são as opiniões polêmicas, nem as vazias, nem as anônimas, nem as críticas - aliás, adoro críticas. O que eu não gosto é de agressão gratuita, como acontece de vez em quando. Vamos nos xingar com respeito, porra, caralho!

Ah, e o blog não é só de propaganda, né Almeida?

Abs!
:D

2:03 PM  
Anonymous Raphael disse...

Não sei, mas parece que, quando todos viraram Robertos Pereira, a expressão "du caralho" também foi banida.

6:39 PM  

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